A GAZETA DE ALGOL

"O morto do necrotério Guaron ressuscitou! Que medo!"

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O último adeus

Autor: Fernando Raffani

Uma pequena garoa começou a cair próximo ao crepúsculo. As pequenas gotas eram intensas o suficiente para levantar a poeira que cobria o deserto rochoso. Poeira que a brisa carregava, formando uma fina cortina de areia na atmosfera. Desafiando esse ambiente hostil, encontrava-se um homem idoso, vestindo um manto com capuz, caminhando lentamente apoiado em uma bengala de madeira. Sua mão esquerda permanecia oculta dentro de seu manto. A periferia da pequena cidade estava vazia naquele horário; mesmo assim aquele homem insistia em continuar sua jornada solitária. Na sua frente jaziam algumas lapides de pedra, em sua maioria em processo avançado de erosão, ao serem submetidas às condições climáticas adversas da região por anos e anos, continuamente. Esse fato não preocupava o idoso, cuja barba branca era a única parte avistável de sua face, que estava protegida pelo capuz de seu mando, protegendo-a dos pequenos grãos de areia e das incômodas gotas de chuva. Ele já não conseguia mais ler as inscrições borradas nas lápides. Mesmo assim, ele parecia estar familiarizado com o cemitério e saber bem onde jazia o seu destino, uma vez que, apesar de avançar lentamente por causa de suas pernas fracas, ele não hesitou por nenhum momento.

Parando em frente a uma das lápides mais erodidas, o homem tirou seu capuz. A cortina de poeira começou a ser dissipada pela fraca chuva, e as gotas de água não pareciam incomodá-lo. O dia havia sido bem quente, especialmente para alguém como ele, tão acostumado com um clima polar. Em silêncio, ele observava o túmulo. Não havia nenhuma inscrição visível remanescente. Provavelmente aquele túmulo não foi visitado durante muitos anos, ou talvez até décadas. Era de certa forma triste imaginar que ninguém se importava mais com a pessoa cujos restos mortais ocupavam aquele espaço, ninguém vinha sequer para prestar uma homenagem à pessoa falecida. As memórias se dissipam com o passar do tempo, e era grande a probabilidade que tanto a pessoa morta quanto o velho visitante seriam esquecidos para sempre em algumas décadas.

O idoso tirou sua mão esquerda de dentro de seu manto e depositou um pequeno buquê de flores cuidadosamente ao lado da lápide. - Faz tanto tempo, minha querida… - Tentando conter uma lágrima que insistia em rolar de seus olhos, o homem permaneceu observando o túmulo em silêncio. Não havia nada a ser feito ou dito, e o silêncio era um sinal de respeito, e até mesmo adoração. Na solidão silenciosa do campo de pedras vazio, o homem encontrara a paz que ele necessitava para poder falar diretamente à alma de sua interlocutora falecida. Não haveria respostas, obviamente, mas dentro de seu coração, o idoso sentia como se pudesse ouvir as respostas de sua companheira há tanto tempo perdida. Além disso, em silêncio, a avalanche de emoções e recordações do passado era mais intenso. E apesar de sua idade avançada, e dos médicos recomendarem que ele evitasse ser submetido a experiências tão intensas pelo bem da saúde de seu coração, ele sentia que essa experiência carregada de sentimentos era necessária. Caso contrário, ele não teria vindo de tão longe apenas para depositar um pequeno buquê em um túmulo. O idoso sabia muito bem que atitudes exteriores não significavam nada, e ele não tinha nada a provar a quem quer que fosse. Seu único interesse era na pessoa com cuja alma ele estava tentando se comunicar.

- Eu sinto como se tivesse acontecido ontem… - O idoso interrompeu sua própria observação antes que perdesse o controle e não pudesse conter as lágrimas. Assim que ele cerrou suas pálpebras, memórias de sua companheira valorosa tomaram de assalto sua mente, tão vívidas que fosse ele um tolo, teria as confundido com cenas reais se desenrolando em sua frente. Memórias de uma tenra idade, quando ele não passava de um mero adolescente, tentando construir seu próprio caminho na vida. Memórias da primeira vez em que ele avistou a garota de cabelos castanhos, tão pouco impressionante na época. Em seguida, tentando organizar as imagens desconexas que vinham em sequência até a parte consciente de sua mente, como um técnico desesperado tentando concertar um rolo de filme cujo negativo foi cortado quadro por quadro e misturado, o homem velho começou a relembrar os dias em que ambos conviveram juntos. Nesse tempo, ambos foram amadurecendo tanto em seus interesses profissionais, quanto suas visões de vida. E, principalmente, no amor. Como aqueles momentos, alimentados por um desejo ardente e incontrolável típico da adolescência, foram importantes para a vida de ambos. Foi a primeira vez que ele vislumbrou o paraíso, e, pelo que ela lhe contou, foi também o primeiro vislumbre do paraíso por parte dela, ocorrido naquele tórrido relacionamento entre dois apaixonados. Como Adão e Eva, os dois amantes viveram em um mundo só deles, um jardim das delícias mundanas, onde apenas ele e ela existiam, abençoados pelo amor da Grande Luz. Infelizmente, assim como o primeiro casal lendário, a existência abençoada do casal estava fadada a uma interrupção brusca. Não foi o pecado original que os trouxe à ruína, mas suas próprias obrigações e interesses distintos. Apesar de aquela vida apaixonada ter sido mágica, a vida não era feita apenas de prazeres, e suas existências não tinham o único propósito de aproveitar as delícias oferecidas pelo mundo. Havia tantas coisas ocorrendo no universo que eles não podiam permanecer alheios, escondidos em suas conchas, como se o mundo começasse e se se encerra neles. Especialmente para ele, que já sabia da cruz enorme que teria que carregar na vida. E ele não queria de forma nenhuma se escusar de sua responsabilidade para com toda a humanidade pela satisfação egoísta de seus prazeres. Ele sentia em sua alma que havia algo a mais que apenas uma paixão juvenil, mas ele também sabia que aquele não era o momento de buscar a completa realização de sua vida através do amor dela. Como seus caminhos, que haviam se cruzado por acidente, agora se afastavam naturalmente, ele teve de deixá-la, mas não sem antes derramar um oceano de lágrimas e proferir infinitas promessas de retornar e retomar aquele relacionamento abençoado, por hora suspenso.

- Como eu desejei… que eu… pudesse voltar… - Não conseguindo mais resistir ao ímpeto de chorar, o idoso deixou as lágrimas rolarem de seus olhos, percorrendo as rugas de sua face, e umedecendo sua farta barba branca. Ele chorava em silêncio. Com os sentimentos endurecidos pelas experiências intensas de sua vida, suas reações eram sempre ponderadas, quase em um equilíbrio perfeito.

Os anos se passaram e o próximo encontro dos dois se deu por acidente. Os sentimentos antigos, adormecidos em seu coração, voltaram com a força de uma tempestade violenta, como se sua alma tivesse sido incendiada. Dez anos mais velho, e agora um homem totalmente amadurecido, ele estava certo de que seu sentimento era mais forte do que nunca, construído sobre bases ainda mais sólidas. Poderia ser apenas o efeito da longa separação, mas de alguma forma ele sabia que havia algo além. Ela parecia ainda mais bonita, mais inteligente, e mais madura. Inclusive até mais madura que ele, uma vez que ela pediu para que ele mantivesse seus sentimentos sob controle. Ele sofreu bastante na ocasião, mas entendeu o ponto de vista de sua amada. Como havia sido no passado, havia coisas muito mais importantes acontecendo ao redor deles, que envolviam a vida de centenas, milhares de inocentes. Não havia tempo para se abandonar novamente a prazeres egoístas. Se o amor era verdadeiro, ele era eterno, então não haveria problema nenhum em esperar. Se o amor não fosse verdadeiro, o tempo se encarregaria de dizê-los. Portanto, eles estavam reunidos novamente, mas desta vez unidos pelas obrigações, ainda que o amor persistisse forte em seus corações. No entanto, certas obrigações, ou a impaciência dele acabaram por separá-los temporariamente.

O próximo encontro… - Oh, o fatídico encontro… - Já era tarde demais. Quando eles se encontraram novamente, foi apenas a tempo de ouví-la dizer-lhe o último adeus. Foi apenas para deixá-lo ciente que ele nunca teria a oportunidade de viver seu sonho, que ele nunca visitaria o paraíso novamente. E ele viveria sempre atormentado, não só por causa da falta da mulher que ele amava ao seu lado, mas também pela incerteza. A culpa de tê-la abandonado quando ele poderia ter permanecido. A decisão que pode ter selado o trágico destino da mulher que ele amava. - Meu amor, perdoe-me… perdoe-me… - O idoso não resistiu mais e desabou em lágrimas, caindo de joelhos no chão. - Se eu soubesse, eu teria feito… teria sido diferente… - Em sua solidão, não haviam ouvidos para escutarem seus gritos desesperados, e ele estava agradecido por isso, pois qualquer interferência destruiria o laço forte que unia a alma dele à alma de sua amada.

Acalmando-se, o idoso se levantou novamente, e secou as lágrimas de seus olhos. - Você sabe… eu tentei… eu tentei… - Após um gemido doloroso, o idoso respirou fundo e percebeu que havia acabado. De repente, ele estava de volta, apenas um idoso em frente a uma lápide, marcando o lugar onde os restos mortais de pessoa morta há muito tempo estavam enterrados. Ele também sabia que aquela tinha sido a última vez. Devido a sua idade já bem avançada, e a distância entre seu lar e o lugar de descanso final de sua amada, sua saúde deteriorada não suportaria outra viagem longa como aquela. Havia chegado a sua vez de proferir seu último adeus, tendo apenas o céu escuro, salpicado de fracas luzes amarelas e brancas das incontáveis estrelas e mundos como o que ele habitava como testemunhas.

- Adeus, meu amor. Essa certamente será a última vez… - O homem velho suspirou profundamente. - Mas eu a levarei sempre em meu coração, até o dia em que o meu próprio coração parar de bater dentro do meu peito… - E, virando-se, carregando toda a tristeza do universo em seus ombros, acrescentou: - E por toda a eternidade… querida Alys…

Era hora de pensar em suas obrigações. Ele estava se preparando para a aposentadoria permanente, e chegou a hora de passar o bastão para a geração mais nova, como a posição de distinção que ele ocupava entre os humanos exigia, mantendo a herança de Lutz viva. Era hora de aceitar que sua hora havia chegado, e preparar-se para a única certeza da vida. Então, ele cobriu sua cabeça com o capuz novamente, apesar de não haver mais necessidade, uma vez que a leve garoa já tinha parado. E, caminhando lentamente, em silêncio, ele abandonou o cemitério.

Quando o idoso já estava distante o suficiente para que o túmulo fosse apenas uma mancha no horizonte, ele se virou e parou, observando o túmulo de sua amada pela última vez, pois sentiu a necessidade de acrescentar uma palavra final. - Se a Grande Luz for misericordiosa o suficiente, como a tradição diz, e nos abençoar com uma vida eterna após essa jornada mundana, eu espero que você ainda me ame da mesma forma que você costumava me amar. E que você possa me perdoar, para que nós possamos viver esse amor que não nos foi permitido viver nesse mundo. Eu sei que eu não mereço o seu amor, Alys, mas eu sei o que se passa dentro do meu coração, e ninguém mais no mundo merece mais do que você receber todo esse amor. E muito mais.

fanworks/fanfictions/o_ultimo_adeus.txt · Última modificação: 2012/04/23 02:47 por orakio