A GAZETA DE ALGOL

"O morto do necrotério Guaron ressuscitou! Que medo!"

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A verdadeira mensagem de Phantasy Star 2

Autor: Mike Ripplinger
Tradutor: Orakio Rob

O pensamento comum entre a maioria dos phanáticos parece ser o de que a grande mensagem por trás de Phantasy Star II é um aviso referente à tecnologia. “Não deixem a tecnologia ir longe demais!” está bem próximo de ser o que eles descreveriam como a maior moral do jogo. É verdade que o principal vilão do jogo, Cérebro-Mãe, é de origem tecnológica, mas não acredito que isso signifique que o jogo seja um aviso sobre os perigos da tecnologia mais do que eu acreditaria que, só porque o vilão principal de Phantasy Star I é um homem velho, o jogo seja um aviso sobre a maldade de cidadãos mais velhos.

Na verdade, Phantasy Star II é um aviso sobre a maldade do comunismo.

Lançado em 1989 no Japão e em 1990 na América, quando a União Soviética estava em seus momentos finais, o Algol de Phantasy Star II nos apresenta o mundo que teríamos se os Soviéticos tivessem tido sucesso em sua famosa ameaça de “enterrar”os Estados Unidos. Os paralelos entre as mudanças que Cérebro-Mãe trouxe a Algol e as mudanças que os governos comunistas trouxeram a países como a Rússia e a China são notáveis.

Considere que um dos primeiros atos de um novo regime comunista sempre é a eliminação de heróis e líderes de governos anteriores. Isso talvez tenha sua melhor representação na vida real na história de Pu Yi, o último imperador da China. Ele subiu ao trono chinês em 1908 quando ainda era uma criança. Ele abdicou do trono em 1912, fugiu da Cidade Proibida em 1924, se tornou imperador do estado da Manchúria, que era controlado pelo Japão, em 1934, e em 1945 foi capturado pelos Russos e mantido como prisioneiro. Eles o entregaram aos comunistas chineses em 1950 e após isso ele passou nove anos no campo de “reeducação” comunista Shenyang, onde o transformaram em um simples jardineiro.

De forma semelhante, vemos em Phantasy Star II que Alis Landale, a jovem que libertou Algol da tirania há mil anos atrás, agora é vista com desprezo. No fim de Phantasy Star I, Alis e seus companheiros são tão queridos que é dito, “Mesmo que a lembrança do mal desapareça, seus nomes se manterão nos corações do povo de Algol para sempre.” No entanto, em Phantasy Star II, Lutz diz, “As pessoas passaram a lutar por coisas que Cérebro-Mãe criou. Elas já não pensavam de forma tão gentil a respeito de Alis.”

Outro indício de comunismo é a abolição da religião. Pouco depois da Revolução de Outubro na Rússia, depois que Lenin e os Bolcheviques subiram ao poder, eles aboliram a igreja. No reino Soviétivo, qualquer um excetuando-se os velhos e as mulheres que iam a igreja eram observados pela KGB, ou ainda pior. Até hoje, a China continua a aprisionar membros da religião Falun Gong em seu país, enviando-os a campos de reeducação e os denunciando como perigosos inimigos do estado. De forma semelhante, vemos o reflexo disso em Phantasy Star II. Em Phantasy Star I, quase todas as cidades de Palma, Motávia e Dezóris tem uma igreja, Em Phantasy Star II, não se encontra uma igreja em lugar algum, e o único personagem que fala em Deus é Lutz, um mago Esper que vive escondido planejando destronar Cérebro-Mãe.

Não é permitido a ninguém deixar uma nação comunista (pergunte às pessoas que se arriscam e geralmente perdem a vida tentando escapar de Cuba e chegar aos Estados Unidos abordo de jangadas primitivas) visto que se os cidadãos de um estado comunista pudessem partir, não sobraria ninguém no país. Essa doutrina comunista também é encontrada em Phantasy Star II, evidenciada pelo fato de que Cérebro-Mãe baniu as viagens marítimas cinquenta anos antes do início do jogo (“Foi há 50 anos atrás que Cérebro-Mãe proibiu o povo de ir para o oceano”) e baniu as viagens espaciais há uma década atrás (“Depois do acidente há 10 anos atrás, o uso de qualquer espaçonave foi proibido”).

Liberdades humanas básicas como o direito de criticar um governo também são revogados num estado comunista, e mais uma vez, nesse aspecto Cérebro Mãe não é diferente. Os residentes da Motávia da era Phantasy Star II demonstram uma completa lavagem cerebral em relação à bondade de Cérebro-Mãe, como evidenciado pela frase do governador, “Eu acreditava que Cérebro-Mãe nunca cometia enganos.” Além disso, quando Rolf tenta ajustar Cérebro-Mãe corrijindo o problema dos monstros que tomaram a superfície, ele é acusado de “danificar” Cérebro-Mãe e é capturado, e ele e seus amigos são sentenciados à morte.

Finalmente, é claro, a maior marca registrada do comunismo é um sistema econômico no qual todos trabalham para o Estado e o estado em retribuição divide tudo o que arrecada igualmente entre o povo. A necessidade básica humana que cada pessoa tem de evoluir é desestimulada pelo trabalho para o Estado. E Phantasy Star II nos apresenta a uma Motávia que está aprisionada nesse sistema. Aparentemente não há necessidade de que ninguém trabalhe na Motávia do período Phantasy Star II (“Por quê eu deveria trabalhar?” e “Meu pai só fica gazeteando o dia inteiro. Ele diz que pode viver sem trabalhar”) e aqueles que tem emprego parecem ou trabalhar para o estado (agentes, biólogos, governadores) ou trabalhar em algum tipo de atividade alternativa (caçadores, ladrões, guardiões).

Os paralelos entre os regimes comunistas da história moderna da Terra e do Algol dominado por Cérebro-Mãe em Phantasy Star II são inegáveis. “Os perigos da tecnologia” certamente não são a mensagem do jogo porque a tecnologia é tão usada pelos heróis quanto pelos vilões no jogo. Um candidato melhor para a mensagem central de Phantasy Star II é a mensagem de que ainda que a sociedade comunista pareça utópica, ela é na verdade dependente da negação de liberdades e desjos humanos básicos, logo é maléfica.

Lutz elegantemente resume o tipo de sociedade que Algol se tornou sob o comunismo de Cérebro-Mãe. “Nós nos confundimos porque Cérebro-Mãe criou tantas coisas, que ficamos sem saber do que relamente precisávamos,” ele diz. “O povo até chegou a pensar que não poderia viver sem Cérebro-Mãe. Eu acho que há uma armadilha demoníaca por trás de Cérebro-Mãe. Isso enfraqueceu a mente das pessoas. Essa armadilha também leva Algol à destruição.” Corretamente diagnosticando que a vontade das pessoas estava sendo sugada pelo Cérebro-Mãe e que o super-computador convenceu as pessoas de que elas dependiam não delas mesmas mas do estado para sua sobrevivência, as palavras de Lutz deixam claro que Algol espontaneamente se entregou (e sua própria liberdade) a um regime que ocultou sua maldade e sua crueldade até assumir o poder. Mais uma vez os paralelos com o comunismo são evidentes, pois isso acontece repetidas vezes em países comunistas.

O jogo também avisa que esquecer das tradições pode ser perigoso. Uma vez eu ouvi que que todas as civilizações ao longo da história seguiram o mesmo ciclo: escravidão, fé, coragem, liberdade, abundância, satisfação, apatia, e dependência. Quando Phantasy Star I começa, Algol está em escravidão, sendo vítima de um rei tirano. Alis e seus amigos se enchem de fé e coragem necessárias para trazer a liberdade, e enquanto Algol prospera com a derrota de Lassic, e também mais tarde com as maravilhas tecnológicas de Cérebro-Mãe, Algol experimenta uma maravilhosa abundância. Mas quando Lutz nos explica tudo e vemos a evidência nos cidadãos, essa abundância leva à satisfação e à apatia até que Cérebro-Mãe tenha tornado todos em Algol completamente dependentes dela e, mais uma vez, o sistema volta à escravidão.

A razão para que Algol caia nesse ciclo é a de que, como Lutz diz, o povo se esqueceu de Alis e da coragem que ela demonstrava (O comunismo de Cérebro-Mãe certamente ajudou nisso). Eu também acredito que sem dúvida a perda da religião Algoliana entre Phantasy Star I e Phantasy Star II também teve um papel crítico nessa volta à escravidão. Em Phantasy Star I, você sai da igreja com uma benção: “Que os Deuses a acompanhem.” Em Phantasy Star II e seu mundo comunista, no entanto, o estado – Cérebro-Mãe – é visto como aquele que olha pelas pessoas e as protege.

Quando Algol se esquece de sua tradições em troca de uma vida fácil, sem trabalho, é o exato momento em que Cérebro-Mãe toma controle do sistema. Cérebro-Mãe – como as nações comunistas do mundo real – reeduca as pessoas, fazendo-as acreditarem por lavagem cerebral, como Lutz diz, que as pessoas “não poderiam viver sem Cérebro Mãe,” protegendo então o sistema imoral da aversão natural das pessoas por ele.

Rolf é um perfeito exemplo da mensagem de Phantasy Star II sobre a importância do livre-arbítrio. No começo do jogo, Rolf é apenas um investigador. Ele não se torna um verdadeiro guerreiro até recuperar seu livre-arbítrio. O momento exato em que isso acontece é quando Nei morre. Quando Rolf descobre que os monstros que rondam toda Motávia foram deliberadamente criadas por Nei1, que trabalhava na instituição criada por Cérebro Mãe, o Climatrol, ele dá de cara com a realidade de sua maldade.

É verdade, parece que Rolf ainda acredita que o sistema possa ser ajustado, até chegar à Mansão Esper e ouvir Lutz descrever o atual governo de Algol como uma “armadilha demoníaca,” mas a decisão de seguir em frente após o ocorrido no Climatrol é importante porque é a primeira vez que Rolf pára de aceitar a vontade de Cérebro-Mãe. Além disso, é a própria Nei que, em suas últimas palavras, avisa que a única forma de se alcançar uma verdadeira liberdade é destruindo a dependência das pessoas em relação ao Estado comunista: “Espero que todos em Algol possam encontrar a felicidade em sua nova vida.” Nei dá sinais de saber que uma mudança radical no estilo de vida trará dificuldades para o povo, mas ela sabe que isso é necessário para que a liberdade seja restaurada.

No fim do jogo, um raio de esperança é mostrado. A vida sem Cérebro-Mãe vai ser dura porque seu governo comunista era a tábua de apoio na qual todos os Algolianos se sustentavam. Antes da destruição, o tirano até provoca os heróis dizendo, “Como vocês sabem se a vida vai ser melhor sem mim?” A resposta dos heróis, demonstrada por seu desejo de lutar, é clara e heróica: “Ela tem que ser.”

Todos os jogos da série Phantasy Star trazem maravilhosas mensagens para a audiência mais jovem para a qual os jogos são direcionados. Mas enquanto Phantasy Star I é sobre a força da coragem, da fé e da esperança, Phantasy Star III é sobre a forma como nossas decisões afetam não apenas nossas vidas mas também as de nossos filhos e netos, e Phantasy Star IV é sobre dar um passo à frente e fazer o que é correto quando necessário, Phantasy Star II carrega uma mensagem muito mais específica. Ele é de longe o mais político da série, e tenta levar aos lares a importante verdade de que um estado que é comunista e nega a seu povo suas liberdades humanas básicas não é um estado utópico, não importando o quão próspero ele possa parecer. Seres humanos nascem livres e qualquer governo que tire nossas liberdades naturais de nós, não importando o quanto oferecem em troca, deve ser derrubado.

fanworks/teorias/teoria_mike_ensaio_001.txt · Última modificação: 2009/01/13 11:58 (edição externa)

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