A GAZETA DE ALGOL

"O morto do necrotério Guaron ressuscitou! Que medo!"

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A missão do rei

Autora: Neilast
Tradutor: Orakio Rob

Eu tinha um nome, e um rosto. Eu tinha uma vida e uma família e uma história. Mas, infelizmente, eu morri em uma terça-feira. E então veio a quarta feira.

Meu corpo foi levado ao necrotério nas cercanias de Bortevo. O agente funerário me colocou na tábua e me cobriu com um cobertor. Foi no dia seguinte que Lassic, enlouquecido por sua maldade, trouxe dor e ruína a Bortevo. Cheio de raiva como ele estava, Lassic viria a atacar muitas cidades e vilas. Mas ele fez um ataque especialmente forte a Bortevo, pois ela era sua cidade natal, e o berço de sua dor.

Casas foram queimadas e o povo foi assassinado. O necrotério no qual fui posto, logo além dos muros da cidade, foi arruinado. Eu apodreci e fermentei por dias, semanas, meses. O cheiro de morte tomou os corredores frios do necrotério. Uma película verde se formou nas paredes azuis composta de toda a corrupção e degeneração existente naquele buraco, eventualmente escapando das trevas para envenenar o resto do mundo.

Meu corpo esperou sob o cobertor apodrecido por mais de um ano até que Lassic retornasse a Bortevo. Seus robôs e criaturas, apesar de numerosos, não podiam estar em todos os lugares ao mesmo tempo. O sanguinário Rei Lassic havia decidido que precisava de um novo exército. E então, com os sacerdotes negros aos quais havia se unido, ele adentrou as ruínas do necrotério e foi até o local onde eu, e outros como eu, aguardavam.

Lassic retirou o cobertor que estava sobre mim. A visão de minha face magra, esmagada e deformada – com seus buracos vazios e a boca aberta em um eterno grito de morte – causou-lhe repulsa. Ele tinha que desviar os olhos de mim. Meu corpo assumiu uma cor púrpura e esverdeada e amarelo-bile, como uma ferida que não se fecha. Os ossos que cortavam buracos através de minha pele eram de um cinza sombrio. Insetos passavam por cada abertura.

“Isso foi o melhor que pôde fazer, Lassic?” um dos sacerdotes perguntou. Ele estava todo vestido de preto, com uma armadura intimidante e uma capa que tremulava. Ele usava um elmo grande e pontudo que lhe cobria o rosto. Era como o chapéu de um bispo mas de alguma forma deturpada. Uma máscara semi-transparente obscurecia sua face.

Lassic franziu a testa. Sua face, como a minha, já havia visto dias melhores. Seus olhos haviam se tornado pequenos e encovados. Sua pele era seca e escamosa. “Sim,” ele disse friamente, segurando nervosamente seu cetro. “Você pode fazer o que peço ou não?”

O segundo sacerdote olhou em volta para os outros corpos semelhantes ao meu que estavam espalhados pelo aposento das mais diversas formas. Ele suspirou. “Suponho que podemos,” ele disse. “Mas faço iss sob protesto. Um trabalho tão miserável…”

“Pare de reclamar,” o primeiro sacerdote disse. Ele retirou as luvas negras que usava, revelando mãos longas, escamosas, quase esqueléticas. Ouviu-se um silvo sinistro, e Lassic pode distinguir o contorno de uma língua grande e pontuda chocando-se contra o interior do elmo do sacerdote, deixando numa área da máscara uma película grudenta.

“Você não é como os outros,” Lassic disse, balançando a cabeça. “Você não é como os Palmianos…”

“Não, nós não somos, Rei Lassic,” disse o segundo sacerdote enquanto ele, também, retirava suas luvas. “Aqueles com os quais você se encontrou antes servem a nosso mestre. E nós, dessa forma, servimos a eles.”

“Seu mestre?” Lassic perguntou.

“Sim, você o conhece bem,” respondeu o primeiro. “Ele é o 'demônio' que você vê em seus sonhos…”

Os dois sacerdotes riram e começaram a agitar suas mãos no ar, seus dedos tremiam em espsmos eventuais.

“O quê são vocês?” perguntou o rei. Ele apertou ainda mais seu manto em torno de seu corpo e deu alguns passos para trás rumo às sombras.

“Pode nos chamar de L-Elm-Gam, os feiticeiros negros,” o segundo disse. “Agora fique quieto para que possamos trabalhar.”

Os L-Elm-Gns começaram a mover suas mãos em uma trajetória circular. Enquanto faziam isso, eles se moviam de corpo para corpo, colocando suas mãos sobre as faces dos mesmos. Eles invocavam uma magia de necromancia, e, para a surpresa de Lassic, em poucos segundos ela começou a surtir efeito. Os corpos estalavam e tremiam. Ossos batiam contra o chão de pedra. Mesmo a poeira que cobria o solo se agitou e flutuou como se possuísse vida. A visão claramente aterrorizava Lassic de maneira forte e severa, mas ele deu o melhor de si para parecer bravo.

Um dos sacerdotes se aproximou de mim, e houve um grande brilho de uma luz em meu cérebro. Pela primeira vez em um ano eu adquiri consciência. Eu me sentei. Eu podia sentir a tábua fria sob o meu corpo. Eu podia ouvir o estalar dos ossos e o som de carne dura rasgando. E com meus novos olhos eu pude ver o horror miserável que era meu corpo violeta, e o terror na face de Lassic.

Apesar de estar consciente, eu estava sob o controle dos sacerdotes negros. Os outros mortos-vivos e eu estávamos alinhados, e os sacerdotes negros nos deram armas de todos os tipos que eles haviam trazido com eles. Fomos divididos em batalhões. E então eu fui separado de meu grupoo. Uma tarefa especial foi designada a mim.

Foi o próprio Lassic que se aproximou de mim, com uma espada e um escudo em suas mãos. Eu me ajoelhei por instinto; a reverência que eu sentia por ele foi inesperada, embora fosse muito real.

“Erga-se, Skull-En,” Lassic disse. Eu me levantei diante dele, orgulhoso por responder ao nome que eu havia recebido. Ele me deu a espada e o escudo que trazia, envoltos por um tecido desgastado. Eu os peguei e os observei à meia luz. A princípio eles me pareceram mal feitos, mas o brilho incandescente que envolvia meus novos armamentos me avisava que havia uma mágica especial neles.

“Tenho uma missão para você,” Lassic me disse. “Há uma jovem garota me causando muitos problemas recentemente. Eu tolamente ordenei a morte de seu irmão. Ele agora é um mártir entre os rebeldes que qurem me assassinar, e enquento correm as histórias sobre os esforços dela, a garota também está se tornando uma heroína.”

Um dos sacerdotes negros acenou para mim, e depois que ele fez isso, eu me tornei capaz de falar. Minha voz era seca e cortante, como o som de vidro afiado em atrito com uma pedra. Mas em meio àquele som quase metálico eu podia ouvir um baixo eco da voz que eu conhecera outrora. Ouvi-la foi uma sensação estranha.

“O que quer que eu faça, Senhor?” Eu perguntei a Lassic, devagar e com grande dor.”

“Hoje a garota está repousando em Camineet, minha maior cidade… e cidade natal dela. A primeira semana de insurreição a deixou exausta.”

“Então eu devo caçá-la e matá-la,” eu sussurrei.

“Se você puder,” Lassic disse. “Mas tenho outros com essa função. Sua verdadeira missão é a de segui-la. Voce seguirá todos os passos dela. Você a observará e me contará sobre cada movimento dela. Você agirá como meus olhos. Você compreendeu?”

Eu me ajoelhei de maneira extravagante. O som dos ossos em meus joelhos roçando contra os outros ecoou pelo necrotério.

“Compreendi, Majestade.”

“Muito bem, Caçador*, Lassic disse, erguendo o queixo. “Siga seu caminho.”

Enquanto os outros observavam, eu lentamente saí do necrotério rumo à brilhante e quente luz do sol. Meus olhos instantaneamente secaram e arderam, mas eu não tinha pálpebras para fechar. Eu me arrastei à luz do dia.Por um momento eu contemplei as ruínas de Bortevo, pensando ter visto algum movimento em meio aos escombros. Mas, ao não ver mais nada, eu parti.

Foi ao nascer do sol do dia seguinte que finalmente alcancei a garota que Lassic me mandou matar. Ela já havia se unido a um gato almiscarado e a um forte guerreiro que carregava um machado e uma pistola. Eu ataquei o grupo assim que os avistei, mas após uma longa batalha eu fui derrotadpo. Eu fui ao chão, caindo sobre uma pilha de poeira e ossos quebrados e tendões rasgados. Mas depois que o trio seguiu em frente, a magia negra dos L-Elm-Gan se renovou, e me tornei completo mais uma vez.

Prossegui em minha perseguição.

Dois dias depois eu os encontrei próximos à cidade de Albion. Um Esper havia se unido a eles. Eu lutei contra os quatro bravamente, e quase fui vitorioso, mas no último momento o feiticeiro invocou uma magia de fogo em mim. Fui consumido pelas chamas, e só muitas horas depois eu revivi.

Durante a noite, no meio da floresta próxima a Loar, eu fiz uma cilada para um jovem que viajava sozinho. Ele gritou assim que me viu e tentou fugir, mas eu o alcancei antes que ele desse mais do que dez passos. Eu roubei suas roupas, e peguei seu manto com um capuz. Disfarçado eu fui capaz de andar entre os habitantes da cidade. Eu passaria despercebido desde que mantivesse distância, e se minha verdadeira natureza fosse descoberta, eu apenas eliminava quem havia visto demais. Eu ouvia qualquer conversa sobre a garota, que eu descobri que se chamava “Alis.” Com as notícias e rumores que reuni, passei a encontrá-la com frequência. Mas cada vez que lutávamos, eu era derrotado.

Já faz agora um mês desde que Alis pegou sua espada e eu saí do necrotério. Nesse longo mês lutei bravamente e mantive o Rei Lassic a par das atividades de Alis. E agora a hora da vedade chegou. Eu espero por Alis no topo da torre de Baya Malay, estou preparando uma cilada. Posso ouvir o som de seus passos enquanto ela sobe as escadas. Posso ouvir a voz de seus companheiros.

Eu ergo minha espada e aguardo em silêncio. Enfim, Alis, eu poderei ficar em paz. Em fim, voce conhecerá minha missão. E você saberá o meu nome. Sou o corpo de Alex Ossale, aquele que já foi seu pai, e agora é seu cacador*. Há muito tempo essa reunião nos aguardava. Mas agora, enfim, o fatídico momento chegou.

Você disse a Damor, o vidente, que estava a minha procura. E se você procura, minha filha, certamente encontrará.

Fin.

fanworks/fanfictions/fic-022.txt · Última modificação: 2009/01/13 11:58 (edição externa)

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