A GAZETA DE ALGOL

"O morto do necrotério Guaron ressuscitou! Que medo!"

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Eu esperarei para sempre

Autor: Darrel Whitney
Tradutor: Orakio Rob

Uma figura solitária vagava pelo deserto de Arídia. O sol quente investia contra ela, o vento seco a atingia , a areia corrosiva a danificava, e as noites do deserto a açoitavam com seu frio, mas ela continuava a caminhar, pois não havia mais nada a fazer.

Seu nome era Miun. Ela era uma andróide-Mieu, talvez a mais avançada da série. Cabelos vermelhos, trajando uma veste que reforçava sua pele com camadas adicionais de titânio e lacônia, Miun foi criada para ser bela e letal. Porém, a pele sintética do lado esquerdo de sua face, e também de seu ombro esquerdo, havia sido ferozmente arrancada. Sua unidade interna de reparos deveria ser capaz de regenerar esses danos, mas por alguma razão isso não aconteceu. Uma falha no código do comando, talvez.

Ou talvez Miun simplesmente não quisesse se restaurar. Sua inteligência artificial estava programada para ter emoções, e se era possível ter emoções, então por quê não haveria também uma mente subconsciente? Uma mente que não permitiria que fossem apagadas as cicatrizes deixadas pela batalha na qual ela perdeu seu amado mestre, Orakio.

Eles ordenaram a ela que fugisse, Orakio e Laya, enquanto mergulhavam nas profundezas do oceano com o palácio de Dark Force, o demônio que aprisionaram ao custo de suas vidas. Miun os deixou porque não tinha escolha, e usou o twin's ruby para selar a passagem entre as biosferas de Landen e Arídia.

Agora seu trabalho estava terminado, e ela caminhava.

Arídia era um mundo estranho. Nele estava localizada a torre de controle do clima, que regulava o clima das sete bioesferas da nave Alisa III, assim como a órbita dos satélites artificiais Dahlia e Azura. Seus habitantes não eram nem orakianos nem layanos, mas robôs e andróides de baixa tecnologia que habitavam a vila de Hazatak. Miun pensou em passar um tempo em Hazatak, distraindo-se em meio à pura lógica de mecanismos sem emoções. A vila não estava longe, apenas mais uma hora de jornada.

Como era de se esperar, as máquinas de Hazatak não se preocupavam com comemorações, pois não serviam de nada para elas. Logo, as explosões semelhantes a fogos de artifício que Miun captou em seus sensíveis receptores auditivos poderia significar apenas uma coisa.

Uma batalha.

Miun correu rumo aos sons de violência, sons cuja fonte ela alcançaria em breve. Não demorou para que ela percebesse que Hazatak estava sendo atacada.

Antes de partirem para confrontar Dark Force, Orakio e Laya deram uma última ordem para seus exércitos, que duelaram durante mais de uma década entre si, uma ordem para não matar. Era o primeiro passo para encerrar a guerra, para restringir a matança aos robôs de Orakio e aos biomonstros de Laya. Foi só um primeiro passo, no entanto, que deixava alguns buracos.

Um deles era o fato de que os mecanismos de Hazatak eram uma classe à parte.

Era uma batalha ainda mais desleal, porque ao contrário das tropas palmianas, os robôs nao podiam decidir desobedecer às ordens de Orakio, nem para sua própria defesa, então eles só lutavam contra os monstros, e não contra os soldados layanos. A maioria dos robôs era de manutenção, técnicos para auxiliar na monitoração da torre de controle do clima e, ironicamente, eram guardiões do tesouro de Laya, um mundo escondido dentro da bioesfera.

Várias construções já estavam em chamas, e os corpos destroçados de dezenas de robôs espalhavam-se pelo chão. Monstros também foram derrotados, vítimas igualmente inocentes de uma batalha desnecessária. Enquanto Miun observava, um guerreiro layano afundou seu cajado no ombro de um grande robô agricultor, esmagando metais e circuitos, arrancando por fim o seu braço. Apesar do robô agricultor não ser capaz de sentir dor, para Miun aquilo foi uma fagulha, um único ponto no qual sua perda e sua angústia concentraram-se, na destruicão de criaturas inocentes.

Com um uivo que para ouvidos laianos parecia misturar sofrimento e raiva em um único som desesperador, o modelo Mieu atirou-se à batalha. Miun arrancou o cajado da mão do guerreiro tão facilmente quanto pais tirariam um brinquedo perigoso de uma criança, e deu um chute em seu maxilar que o fez desmaiar.

Ao contrário dos robôs sem consciência, Miun seria capaz de quebrar as ordens de Orakio, se tivesse motivos. Ela não o fez, no entanto, pois não desejava contribuir para a carnificina tirando vidas de Palmianos. Com os monstros ela não tinha piedade, dreidons, biclops, pulsars e goldroots caíam diante dela. Os layanos, no entanto, eram apenas desarmados ou incapacitados de lutar.

Mais de uma vez, Miun também foi ferida-ora por espadas, ora por garras. Ela ignorou por completo sua própria defesa, confiando em suas habilidades regenerativas para manter-se. Sua estratégia funcionou. O modelo Mieu era um dos mais habilidosos guerreiros de Alisa III, e ela espalhou tamanha destruição entre as fileiras layanas que eles foram forçados a recuar e se reagruparem. Eles não reiniciaram o ataque, no entanto, parecendo estar à espera de algo.

Finalmente, um dos layanos deu um passo a frente. Ele tinha dois pequenos cajados presos como espadas em seu cinto, mas suas mãos estavam vazias. Não que isso fizesse dele alguém menos perigoso; Muitos layanos, especialmente seus líderes, eram poderosos espers. Ele tinha cabelos negros e curtos, e curiosamente, usava óculos, de aros finos. Eles não pareciam combinar com sua altura e seu porte atlético.

“Voce parece estranhamente piedosa para uma andróide de combate'” ele disse a ela.

Conversando? Será que é um truque?

“Em memória de Orakio, obedecerei à última ordem dada por ele a seus seguidores, e não tirarei a vida de palmianos,” Miun disse com orgulho.

O layano compreendeu a parte mais significativa de sua declaração.

“Em memória de?” ele disse, recuando discretamente. “Então os rumores são verdadeiros. Ele está…” Um olhar de medo preencheu sua expressão. “E Laya?”

Miun abaixou a cabeça.

“Ambos se foram.”

“Não,” ele sussurrou horrorizado. “Eu ouvi dizer que eles haviam lutado a batalha final, mas…”

“Ela morreu bravamente,” disse Miun.

O layano cerrou os punhos, o ódio queimando em seus olhos. A dor, como frequentemente acontece, encontrou escape no ódio.

“Ela morreu tentando impedir que coisas como você conquistassem nosso mundo, fazendo-nos escravos da tecnologia!”

Ele olhou para suas tropas derrotadas no campo de batalha.

“Já que você escolheu, por alguma razão, lutar com honra, vou lhe fazer uma oferta, andróide. Um combate de campeões. Se eu ganhar, essa vila de pesadelos mecânicos será destruída. Se você vencer, vamos retornar para nossa bio-esfera nativa. Será um a um, como Laya e Orakio.”

Não foi desse jeito que aconteceu com eles.

A parte lógica de sua mente reconheceu a proposta como sua melhor chance de sucesso, se Miun recusasse ela teria de confrontar o general de qualquer forma, acrescido de suas tropas.

“Eu aceito,” ela disse.

“Muito bem.”

Ele não partiu para o combate físico, nem tentou invocar uma magia. Ao invés disso, ele fechou seus punhos, cerrou os dentes, e os contornos de seu corpo borraram. Carne, osso, roupas e armas em um único corpo que crescia. Em segundos, Miun estava diante de um dragão negro, com olhos cor de opala e garras e dentes afiadíssimos. Ao contrário da maioria das outras feras, essa possuía polegares, para que suas garras também servissem como mãos, se necessário.

“Você é uma das mais avançadas criações de Orakio. É mais do que justo que confronte uma das mais avançadas criações de Laya.”

Um cavaleiro-dragão! Miun notou. Guerreiros que poderiam transformar-se em criaturas poderosíssimas e, ao mesmo tempo, manter sua inteligência intacta. Eles eram os mais poderosos servos de Laya; Miun queria ter visto mais deles na batalha contra Dark Force.

Ela perdeu muito tempo admirando-o; O dragão abriu a boca e cuspiu chamas em direção à ela. A bola de fogo atingiu Miun lateralmente, danificando-a bastante. A andróide tentou ativar sua habilidade de regeneração enquanto se preparava para atacar, mas demorou para que o comando surtisse efeito, então, ao invés de ter um grande foco de energia direcionado ao controle de danos, o que houve foi um tilte. Ela travava enquanto corria, e o dragão investiu contra ela, derrubando-a com um golpe de suas asas, antingindo o abdômem com suas garras. Miun caiu, aparentemente inerte.

Seu oponete soltou um rugido triunfante e animalesco, e voltou-se para a vila que era seu prêmio. Miun, ainda não derrotada, conseguiu erguer a cabeça, observando através de sensores óticos que traziam uma imagem borrada e defeituosa. Aos poucos, seu corpo danificado foi se reconstruindo, mas haviam danos graves que levariam tempo para serem restaurados.

O dragão abriu a boca, e virou-se para um pequeno robô de especialidade técnica, desprovido de qualquer capacidade de combate. Miun pensou no tesouro de Laya, nos segredos contidos nele, e como os robôs de Hazatak o mantinham. Então, ao invés de um robô indefeso, o que Miun viu, caído ali, foi o corpo ferido de Orakio, quase morto, aguardando pelo último ataque de seu inimigo.

“Nãããããããão!”

O poder foi redirecionado para os músculos de suas pernas, renovando-as, restaurando-as, e ela saltou pelo ar, jogando-se entre o monstro e a vítima. Dessa vez Miun absorveu por completo o impacto do fogo do dragão.

O robô emitiu um bip, surpreso, reconhecendo o inesperado fato de continuar existindo, mas não foi isso que Miun ouviu enquanto seus circuitos se desligavam.

“Obrigado, Miun.” O sussurro de um fantasma, ecoando em seus receptores de áudio.

E então, mais nada.

O Cavaleiro-dragão retornou à sua forma humana, chocado. Olhando para o corpo despedaçado do modelo Mieu diante dele. O sacrifício dela -não poderia ser menos do que isso- tirou-o de sua fúria assassina. Ele sentia apenas um vazio pela perda daquela dama.

Ele não queria destruir mais nada. Nem mesmo uma das máquinas de Orakio.

Uma jóia brilhou na areia, onde foi jogada após soltar-se da fivela de Miun. O cavaleiro-dragão abaixou-se para apanhá-la. Como um dos comandantes de Laya, ele reconheceu o twin's ruby, a chave para a bio-esfera de Landen, então ele colocou a jóia no bolso de sua capa. Landen era um mundo Orakiano; A jóia tornaria possível uma futura invasão.

Olhando para os restos da andróide, no entanto, ele não acreditava que ocorreria uma.

“Reúnam os feridos,” ele ordenou às suas tropas. “Não há mais nada por aqui que valha nossas vidas. Nós deveríamos estar em casa, defendendo Aquática.”

Houveram grunhidos, mas os soldados obedeceram. Os robôs de Hazatak, não programados para a guerra e vendo seus adversários retirarem-se, não tentaram continuar o conflito. Os layanos e seus monstros logo haviam desaparecido além das dunas.

Muitas horas se passaram, e Azura e Dahlia reinavam no céu antes que o modelo Mieu se movesse.

Seu sistema de reparos danificado, funcionando muito vagarosamente, de alguma forma conseguiu trazer Miun de volta à vida, ainda operando o comando de acionar o programa regenerador, embora sua consciência de si mesma tivesse sido desligada e precisasse ser reiniciada. Quando isso finalmente aconteceu, ela ergueu-se, solitária na noite do deserto.

“Eu o salvei,” ela disse para o vento que soprava. “Algum dia, ele retornará a mim, com sua espada negra em punho, e eu…”

Sua voz parou, suas palavras continuaram de forma silenciosa dentro de sua mente. Miun nem havia percebido que estava falando. Talvez tenha sido por causa do fogo do dragão, ou talvez tenha havido um corrompimento interno, uma mente escondendo-se de si mesma, mas qualquer que seja o motivo ela estava… danificada.

Eu o verei novamente, algum dia.

Texto original: http://www.phantasy-star.net/fanfics/whitney/forever.html

fanworks/fanfictions/fic-004.txt · Última modificação: 2009/01/13 11:58 (edição externa)

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