A GAZETA DE ALGOL

"O morto do necrotério Guaron ressuscitou! Que medo!"

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Phantasy Star B-rai-N

Capítulo III

Diário de Atividades Históricas, Agente Historiador Foresth registrando.
Data local DM 2012 AW 844

“Finalmente foi dado o passo mais importante para a viabilização do tele-transporte: a preservação intacta das informações a nível quântico contidas num átomo de uma célula com a utilização do efeito “entrelaçamento”, amplamente usado em nossos computadores quânticos, combinados com o processo de desmolecularização e remolecularização possíveis através do uso da radiação capaz copiar, desfazer, alterar e refazer o campo estrutural físico intrínseco. Com isso será possível transmitir essas informações sem degradação do sinal portador através de um feixe de energia de matéria convertida caminhando pelo subespaço, e rearranjando os componentes da matéria na seqüência correta numa estação geradora de campo intrínseco.” “Na primeira vila não nativa denominada Zosa em homenagem ao seu projetista fundador Üyemiz Zosa Olguin, foi rapidamente erguida graças à montagem de blocos pré-moldados, construída para abrigar os mineiros de Skure e para tentar estabelecer contatos amistosos com os aldeões dos vilarejos próximos, já estão nos estágios finais com a estruturação definitiva das redes de esgoto e abastecimento de água potável e a implantação das novas torres de comunicação (Utilizadas em Palma em larga escala). Com essas torres será possível manter contato constante tanto com as naves em órbitas, quanto com os outros planetas sem as interferências proporcionadas pela densa atmosfera Dezoriana.”

“Enquanto isso, em Palma, comemora-se a queda do antigo reinado e o estabelecimento e consolidação de um governo definitivo, as rebeliões dos nativos Palmanos foram desmanteladas não oferecendo mais qualquer risco às vidas dos novos cidadãos federados. Entretanto, a inteligência militar ainda prevê uma nova e, segundo os políticos, pouco provável investida bélica desesperadora.”

A súbita tempestade vinda do nada castigava as equipes de terra, o jovem Alferes Tom espirrava sem parar mesmo protegido pelo traje ambiental, era difícil concluir a acoplagem da broca laser nas bases metálicas para ultrapassar a densa camada de gelo que ainda restava, esta já era a terceira broca que seria colocada em uso, as duas anteriores haviam sucumbido ao diferencial térmico. Até o momento eles haviam penetrado 175 metros no solo gelado, e pouco ainda faltavam para viabilizar a entrada segura nas cadeias cavernosas. Entretanto, a dedicação movida pela curiosidade fazia com que o Alferes trabalhasse sem parar, logo abaixo poderia existir a peça de um grande mistério a se desvendar: “Os resquícios remanescentes de uma cultura inteligente soterrada no frio, e capaz de manipular o metal mais duro que a galáxia já viu.”

A abertura era feita diagonalmente num declive onde quem quer que fosse descer no local, poderia fazê-lo através de escadas moldadas no próprio gelo. Acima da abertura, na superfície, existia uma tenda marrom que protegia a entrada da constante nevasca, várias outras tendas de cores variadas também haviam sido montadas.

Enquanto o gelo milenar voltava a ser derretido, perto dali, Verônica estudava o registro de um instrumento sensor de mão, ela se movia lentamente para não escorregar na superfície congelada. Volta e meia ela se surpreendia mergulhada num mar de recordações, lembrando de, numa ocasião anterior, ter participado de uma escavação arqueológica em Palma. Porém, num planeta de gelo como Dezóris, não havia a necessidade de se ficar carregando terra, bastava um laser de baixa potência para resolver parte do problema até chegar à entrada.

– Doutora Verônica para Intrépida.

No interior da espaçonave, Tyler observava parcialmente preocupado alguns pontos vermelhos no radar, ele não sabia dizer ao certo o que eram, e era muito pequena a probabilidade se serem encrencas.

– Na escuta.

– O que a previsão meteorológica tem a nos dizer sobre essa precipitação de gelo?

– Posto de ciência, como se comportará o clima lá em baixo? – Solicita Tyler ao posto de ciência.

– Mais alguns minutos de tempestade intensa para depois o céu aparecer novamente. – Informa.

– Ouviu isso…?

– Sim Capitão. Vamos prosseguir com cautela.

– Entendido, Intrépida desliga.

Na escavação, o Alferes Tom parou por um instante de furar o gelo com o laser, a nuvem de água vaporizada tomava conta do local, ele precisou retirar as gotículas que haviam se recristalizado diretamente no visor de seu capacete, para poder observar os sensores, e averiguar o quanto ainda faltava. – Ótimo! – regozijou-se enquanto religava o laser. – Falta bem pouco.

Ainda estudando os sensores, Verônica deu uma breve pausa para contemplar a paisagem, o céu estava prestes a se limpar. Observando ao longe, por de trás das montanhas, ela tem a impressão de ver o contorno momentâneo de algo gigante e invisível moldado fantasmagoricamente no temporal dissipante. Mas qualquer que fosse o mistério ou alucinação, seria deixado para posterior análise, para aquele momento algo mais urgente tomava a precedência de suas atenções.

– Doutora! Doutora! Conseguimos! – Diz um dos técnicos. Chegando ao local, o buraco estava rodeado por pessoas de braços cruzados devido ao frio intenso, a equipe de apoio havia deixado suas tarefas por fazerem, e movidos pela curiosidade haviam se aproximado para ver a entrada que se abriu.

– Verônica para Intrépida. Conseguimos chegar até o acesso, vamos entrar.

No espaço, Tyler sentia um pouco de inveja de explorador por estar de fora da equipe que iria entrar na caverna, corredores ou meramente na futura mina de Skure. Qualquer que fosse o mistério, possivelmente seria logo desvendado. Todavia, segundo as normas, o Capitão era proibido de participar de missões em terra se estiver em estado de guerra, ameaça de conflito, ou se a missão no planeta oferecer qualquer risco à sua vida. Nesse momento, ele sentiu uma ponta de raiva devido a uma pouco provável ameaça rebelde frustrar sua ida ao planeta. Mas não tinha escolha a não ser obedecer às normas e responder.

– Prossiga. Mas com extrema cautela. Ficarei de olho nas coisas aqui de cima.

– Muito bem, vamos descruzar estes braços e trabalhar. – Ordenara a jovem Doutora enquanto se preparava para explorar o subsolo.

Transpassando a passagem e chegando ao fundo do buraco de gelo e neve, após descer por uma escada de declive íngreme de aproximadamente dois metros de largura, eles entram iluminando o lugar com suas lanternas impermeabilizadas. Verônica liderava a equipe pela caverna que havia sido formada naturalmente durante milênios, Paris seguia logo atrás dela, ele era um homem de meia idade e porte físico largo, cabelos desgrenhado, e era especialista em arqueologia, Paleontologia e Micropaleontologia. Tom os seguia no final, todos em fila indiana.

Levaram uns dois minutos para chegar aos seus destinos, o que parecia ser a fachada de um prédio conforme haviam suspeitado pelas análises dos sensores quando ainda estavam em órbita. Logo à frente deles, uma porta metálica parcialmente aberta, ela parecia ter sido danificada por algum tipo de explosão de dentro para fora.

– O que poderia ter causado isso…? – Pergunta Paris enquanto passa a mão na área mais afetada.

– Ao menos a abertura permitirá nossas entradas sem problema. – Comenta Tom.

Em seu interior poucas coisas podiam ser vistas devido à persistência da escuridão, mas era discernível que estavam numa área quadrada ou retangular sem nada além de ostentar o mesmo ambiente cavernoso de outrora, o ar era viciado parecendo estar naquele estado por milênios. – O bom disso tudo é que não está tão frio. – Observa o rapaz que vinha logo atrás se recordando de alguém ter lhe dito que no interior de um Iglu não é tão frio quanto imaginavam os desinformados. O alferes Tom, que insistia em ficar no fim da fila indiana, fez meia volta para observar a luz proveniente da abertura por onde vieram, e sentiu uma ponta de arrepio se iniciando na base de sua coluna e lhe subindo pela espinha até a nuca.

Ao entrarem todos eles lançaram as luzes combinadas de suas lanternas em volta para tentar descrever melhor o ambiente no qual se encontravam. A Doutora pôde perceber que se tratava em uma grande área retangular medindo aproximadamente três por cinco metros, e era totalmente desprovido de qualquer cômodo, como de fato haviam percebido anteriormente. Logo adiante, uma porta sem maçaneta um pouco mais estreita do que aquela usada para entrar no lugar, iluminada por uma luz vermelha que vinha do teto focando direto à frente da porta com o intuito de iluminar quem estivesse exatamente de cara para o acesso. Ao se aproximarem, de repente, por sorte ou por azar, se acionou sem avisos um mecanismo que acendeu as luzes fluorescentes do lugar iluminando-o totalmente, a porta se abriu automaticamente, e uma voz mecanizada masculina ressoou em seus ouvidos.

– BOM-VALDES…

– O quê…? – Todos se assustaram com a voz, que apesar de mecânica, parecia simular com precisão uma personalidade humana genuinamente e amigável.

– E agora!? – Pergunta Tom sem medo de demonstrar seu medo.

Verônica respirou profundamente tentando analisar a situação de um ponto de vista lógico. – Se fosse uma armadilha, ao invés de dizer algo com essa tonalidade amigável de voz, já estaríamos estirados no chão… Vamos entrar.

Eles estavam agora no que parecia ser um longo corredor vazio com várias portas fechadas posicionadas dos dois lados a cinco metros uma da outra. Desta vez as portas possuíam maçanetas ou algo parecido com uma.

– Mas que estranho… – Comenta Paris

– Vamos deixar de conversa e tentar uma porta de cada vez. – Sugere calmamente a líder da equipe.

Todos seguiram cautelosamente pelo corredor tomando o único caminho disponível e tentando abrir as portas que aparentavam estar todas trancadas, até que uma finalmente se abriu.

Ao passar pela porta destrancada, eles acabaram adentrando numa sala cujas paredes eram feitas de metal e vidro opaco, e continham algum tipo de informativo confuso referente à Topografia do Planeta Dezóris. Havia também alguns esquemas sobre um tipo de máquina de design estranho e alguns painéis exibindo telas quadradas dentro de suportes ovais, as telas estavam desligadas e eram feitas de cristal liquido de cor azul claro adotando a tecnologia Touch Screen. Mais adiante, no fundo da sala e encostado na parede, havia algo parecido com um computador, tratava-se de um monitor central com quatro teclados circulares, sendo dois em cima e dois em baixo separados um do outro aparentando ser uma interface anatômica para cada mão, ou algo parecido com mãos.

– Porque quatro teclados…? Seriam dois para as mãos e dois para os pés…? Seriam realmente pés…? – Verônica estava tão confusa quanto os demais, entretanto, Tom, que não pôde conter sua atitude burlesca, mesmo ainda com medo, comentou. – Eu só espero que, se encontrar algum deles por aqui, eu não tenha que cumprimentá-lo com um aperto de mão ou um abraço.

A jovem Doutora, sem muito entender o estranho contesto “piadístico” do alferes, direcionou suas atenções para os estranhos caracteres cravejados nas paredes enquanto Paris e Tom procuravam decifrar o sistema de inicialização do computador. Verônica tateava as paredes com as pontas dos dedos, achando estranho não poder sentir o frio proveniente do lado externo do prédio sepultado no gelo. Após um exame visual preliminar, Verônica finalmente pôde concluir… – Por isso nossos sensores não penetravam neste interior, parte dele é feito dessa Matéria X, que, além de confundir feixe ressonante dos sensores, parece possuir também a propriedade de não absorver temperaturas frias e talvez até quentes. Isso vai ser um problema se quisermos derretê-lo. Alem do mais, como ainda haveria energia aqui dentro condicionando a temperatura interna a qual estamos sentindo agora? – Ela sabia que por estar num lugar muito antigo, não só as paredes como também o chão e o teto deveriam estar completamente congelados. Entretanto, isso não ocorria por vários fatores, e a doutora só podia especular sobre a fonte de alimentação do lugar e o metal que eles denominaram de “Matéria X” constituindo parte das paredes. – Talvez uma fonte nucleônica primitiva ou um moderno sistema de matéria e antimatéria.– Finaliza a Doutora tendo ciência de que tudo eram questões que ainda precisavam ser respondidas.

Enquanto examinava as paredes, algo pequeno e brilhante chamou a atenção de Verônica, era um pequeno DataPAD caído no chão ao longe, ele possuía as dimensões de 5,26 x 2,74 x 80 polegadas, uma tela central com seis botões do lado esquerdo e três botões do direito com um direcional em cruz logo abaixo, uma tela colorida auto iluminada de 176 x 208 com alto contraste e interface de ecrã táctil para o usuário, na mesma eram exibidos pequenas imagens referentes à fauna Dezoriana e informações em linguagem incompreensíveis ao lado. – Como eles conseguiram fazer um note pad desses com esse metal…?

De repente, novamente uma voz chama a atenção de todos.

– CHOCILDE ADOLRADIDO…

RAZE USUÍTAE… VASARILRO…

TIÇI: HUMILI DE ZNILORI ÍGUI

IROLÇ~IE!

“FELRO DO ROCLENEGAI ALCEMZIRÁVON CEM SUI OSRIDI IQUA.”

“OTTE DO SOGUTILÇI LE SASROMI!”

“OTTE DO SOGUTILÇI LE SASROMI!”

– Isso é muito estranho. – comenta o Tenente Paris com sua voz ligeiramente roufenha, Verônica se aproximava para observar na tela recém ativada uma infinidade de gráficos animados de cadeias de DNA diferentes com pequenas analogias que permitiam interligar-se entre si formando uma cadeia única e depois separar-se novamente para suas formas originais. – existe aqui uma grande mistura de caracteres familiares junto a outros que desconheço, não tenho como traduzir o texto por completo, somente pouquíssimas palavras. Por exemplo, isso aqui é muito parecido com Hebraico…

– O quê?! A forma lingüística com a qual foi escrita a Bíblia original, a Torá, que os Judeus consideravam ter sido escrita na época de Moisés…? – Interroga a Doutora. Verônica era muito pequena para entender o surto de fanatismo no qual o Planeta Terra havia mergulhado quando foi dada a notícia de que o mundo estaria no fim. Mesmo assim, depois de crescida, Verônica tornou-se uma especialista na maioria dos conhecimentos culturais, históricos e religiosos de seu mundo, sem mencionar seu embasamento completo em Física, Química e Biologia.

– Sim. Aqui também há semelhanças com Árabe, Aramaico e Amonita, aqui está escrito LOC-TELE-MA-CEL, eu não sei ao certo o significado, mas pelos gráficos, parece ter algo a ver com a morte. Há também outras línguas extintas que não há necessidade de mencionarmos no momento. – Completa o arqueólogo.

– Como pode ser isso, não estamos há milênios de distancias da Terra…? – Tom parecia se deixar dominar por uma combinação de empolgação com a nostalgia de um mundo que também não chegou a conhecer.

– E não pára por aí. Ele também faz referências aprofundadas com passagens da bíblia cristã, religiões pagãs e até do Alcorão, o livro sagrado do Islamismo contendo as revelações do Profeta Maomé, e tudo numa espécie de perfeita conjugação entre ciência e misticismo. Por exemplo, as maiorias das palavras que eu conheço são termos relativamente modernos, como este aqui que significa célula e vírus em Navajo, e tudo isso me faz acreditar que o que estamos vendo aqui é um tipo de idioma central derivando de muitas outras línguas, até mesmo as vistas na terra. Eu até apostaria em dizer que alguns desses outros caracteres que desconheço poderiam ser encontrados em civilizações de tempos remotos residentes em outros mundos.

– Como assim? – Tom empolga-se ainda mais.

– Deveríamos trazer um lingüístico e um teólogo para estudar isto. – comenta brevemente antes de poder prosseguir – Bem, prestem atenção, estes aqui… – Apontando para alguns caracteres químicos ao lado de alguns gráficos… – são termos usados em bioquímicas que descrevem a genética humana, só que eles estão em línguas misturadas, esse aqui quer dizer ADENINA, uma purina que desempenha vários papéis bioquímicos. Esse outro é uma base nitrogenada chamada GUANINA, essas outras palavras, mesmo embora eu consiga ler, desconheço seu significado, como por exemplo: BOCHRNUFFR, RHAIGE, SHOSROT, YEP, FIBAILE-KEACH e RINNITACE. Provavelmente são termos ligados a esquemas de seqüências dos Ácidos Desoxirribonucléicos originais que compuseram a sopa primordial do universo ou apenas do sistema Algol…

– O que são esses gráficos aqui…? – Pergunta Tom apontando de volta para os gráficos animados de cadeias de DNA, sua impaciência aumenta cada vez mais. Todavia, Verônica, que já estará a um bom tempo observando esses gráficos tentando entendê-los, interrompe para responder.

– Não há como saber ao certo, parece que são cadeias de DNA diferentes que se combinam entre si de alguma forma numa instrução genética de um ser vivo único. Por exemplo, do ponto de vista químico, essa junção forma um complexo polímero de unidades nucleotídeas, muito mais informações genéticas são apresentadas nesse gráfico unificado, como mais e diferentes ligações fosfodiéster, muito mais pares básicos, aparentemente uma taxa muito superior de replicação de cromossomos que, de tão encorpados, são quase cinqüenta mil vezes o tamanho em nanômetros formando os perímetros. – Verônica indica agora uma tabela exibindo seqüências confusas de números em lotes conectados entre si por uma mesma configuração protéica, demonstrando ao mesmo tempo, compatibilidade química e numérica. – Para confirmar isso, tem também essas conversões matemáticas de filamentos de fragmentos de Ácido Desoxirribonucléico similar a uma árvore binária com uma estrutura de codificação algorítmica, provavelmente sejam as instruções necessárias para a criação de algum software baseado no DNA.

– Seria uma espécie de programa de computador ultra sofisticado?– Indaga Paris redundantemente.

– Se for, esse programa deve ter bilhões de anos, criado para ser o alfa de tudo, da vida no universo. Talvez sejam partes de um todo incorporado diretamente nas formas de vidas mais primitivas que evoluíram para aquilo que conhecemos hoje. – Finaliza a Doutora.

– Ou então isso poderia ser a cadeia de DNA de um ser único que contém a composição genética de muitos ou até de todos os seres do universo…? – Interroga inocentemente o alferes, despertando o olhar assustado da Doutora tentando inconscientemente encontrar uma nova definição para o termo Deus.

– Pode ser sim. Mas eu não diria do universo inteiro, e sim dos quatro quadrantes de nossa galáxia. – Pondera Paris. – Mas o que importa é que se isso for decifrado corretamente, poderemos até encontrar as respostas para todas as perguntas que já foram feitas por todos os teólogos de todas as religiões, questões ponderadas durante milênios. O segredo da vida e da morte, a própria fonte do poder absoluto.

– Ok. Ok. Vamos trabalhar por partes, não há necessidade de irmos tão longe assim, pelo menos por enquanto. – Interrompe a líder da equipe começando a ficar temerosa com a declaração do Arqueólogo, afinal seu mundo pereceu por causa da cobiça do homem pelo poder. – Tom, faça registros dessas imagens. Logo devemos retornar a Zosa.

Alguns minutos se passaram, e Tom, que fazia o registro visual dos caracteres com o auxílio de um escâner de digitalização holográfica, percebeu a aproximação súbita de uma forma humanóide diferente de tudo que já vira. Seja o que fosse, era alto e de aparência magra, possuía a pele verde desprovida de pelos, seu rosto tinha o aspecto frio e isento de qualquer demonstração emocional, sua boca não possuía lábios, seu nariz não tinha cartilagem nem ossos nasais, somente os orifícios para entrada de ar, também vestia um traje espesso muito eficaz contra o frio, e um alongado chapéu com um símbolo semelhante ao dançar do fogo, aparentemente simbolizando uma hierarquia ou provavelmente alguma devoção baseada no aninismo.

– Quong Benut Há Dê? – Trovejou a criatura enfurecida que empunhava ameaçadoramente um grande cajado de madeira onde, numa das pontas, havia um cristal vermelho que pulsava de maneira suave.

– Ai meu Deus! O que ele quer…?– Fala Tom timidamente enquanto recua com dificuldade devido a paralisia de suas pernas provocada pelo medo daquilo que não entendia. Verônica correu o mais rápido possível se metendo entre o alferes e o Dezoriano.

– Calma Tom! É um nativo, e pelo que li, eles não gostam de forasteiros. – replica a jovem enquanto levanta os braços num gesto apaziguador e exibindo na mão o estranho pad que havia encontrado anteriormente.

A criatura ao perceber o objeto, recua dois passos abaixando o cajado e apontando com um dedo para o PAD, seu rosto quase demonstrou uma emoção, se fosse decifrada pelos padrões humanos, este sentimento seria medo. – Lacônia! Lacônia! Gatepú Won Lacon!– Tremeluziu a voz do nativo.

– O que? Lacônia? O que você quer dizer? – Indaga a doutora mesmo sabendo que qualquer que fosse a resposta, mesmo gesticular, provavelmente não compreenderia. Nesse momento, o baque surdo de uma explosão vinda de fora faz parte do complexo estremecer, assustando o nativo que olha para o alto, fugindo logo em seguida. – Vamos sair daqui! – Grita Verônica para sua equipe que obedece sem hesitar.

Mais uma explosão… E mais outra. – O que esta havendo?! – pergunta um dos exploradores. Verônica, no entanto, evita responder apenas com base no que poderia ser. Tudo o que restara a eles era seguir o alienígena esverdeado rumo à luz no fim do túnel, – Nossa! Como ele é rápido. – Pensaram, e quanto mais se aproximavam, mais altos se tornavam os sons das explosões.

– Mexam–se! Mexam–se! – Os gritos da doutora iam se perdendo na barulheira. Mais um baque surdo e horripilante emanando da entrada, era uma explosão luminosa que atingira o Dezoriano que, na ocasião, já havia alcançando a saída, ele descera as escadarias rolando até o chão.

– Ele morreu! – Declara Paris observando o nativo encharcado em seu próprio sangue azul.

– Aquilo não foi um relâmpago. – começou Tom – Não podemos sair assim. – Verônica assentiu com a cabeça esperando um bom motivo para mudar de idéia, até que.

– Ver… Verô… Resp..nda! – Ressoou com estática um dos comunicadores, era Tyler tentando estabelecer contato com a equipe de terra. No mesmo instante Verônica puxou de seu bolso o comunicador de alta freqüência que o Capitão havia lhe dado enquanto estavam na Intrépida, e o ligou esperando que um milagre pudesse permitir que a comunicação fosse possível.

– Verônica! Verônica! Responda por favor! – a voz no comunicador era quase limpa, e o alivio por ouvi-la era evidente.

– Estamos bem aqui na caverna Capitão. Mas estamos presos.

– Preste a atenção! Estamos com problemas aqui em cima também, mas eu darei um jeito de ir te buscar. Vou descer com a nave para dar cobertura. Ao meu aviso, saia correndo daí e se esconda, e espere por mim em algum lugar seguro… e mantenha esse localizador ligado até eu aparecer.

– Sim, aguardando. – Consente a doutora.

No espaço, Tyler estava lutando com toda sua experiência contra três das cinco naves que estavma ocultas dos sensores no pólo magnético do planeta. Das cinco, duas tentaram entrar no planeta, mas Tyler conseguiu abater apenas uma. Nos sensores de longa distancia mais oito naves que estavam em rota de interceptação numa formação clássica de asa expandida, o que indicava que ao alcance dos armamentos, elas viriam atacando com tudo, e mesmo a nave Intrépida de Tyler possuindo um poder bem superior, teria graves problemas contra tantos inimigos. Todavia, o experiente Capitão tinha um plano.

– O plano é o seguinte: Vamos abater ou ao menos inutilizar essas naves aqui em cima, e depois descer com tudo para o planeta, durante a reentrada atmosférica, eu irei para o hangar e sairei com uma nave para buscá-los. Leme, já vi você em combate antes, quando descermos e estivermos ao alcance das armas, use tudo o que tiver em mãos para abater, afugentar ou desnortear aquela nave lá em baixo. Conto com você.

O plano era bom pelo simples fato de ser arriscado, o que o tornava inesperado. Durante a reentrada, uma nave daquele tamanho perderia drasticamente a mobilidade nas manobras de frenagem podendo até cair, somado às dificuldades em seu eminente combate contra um oponente menor, porém com maior mobilidade na gravidade de um planeta. O fato era que ninguém poderia contestar as ordens do Capitão, já que não estavam numa democracia, mas sim numa organização militarista.

Neste momento, a Intrépida sacudiu com um disparo certeiro de um torpedo que lançou a tripulação ao chão e adernando parcialmente a nave.

– Nivelar! – Grita o Capitão enquanto antecipadamente a piloto já tentara fazê-lo. – Armar canhão frontal. – ordena enquanto se ajeita em sua poltrona de comando. – Mirar na nave mais próxima e disparar quando proto. – Menos de um segundo após, a nave Intrépida dispara seu laser frontal quase à queima roupa, fazendo o inimigo girar duas vezes em seu eixo transversal até finalmente explodir. Era cedo de mais para comemorar seu triunfo, mais duas estavam em formação cerrada.

– Potência máxima nos jatos de impulso, inicie manobra circular com emparelhamento lateral, escudos ao máximo, disparar laser de estibordo ao meu comando. – Após a manobra. – Fogo! – Grita o Capitão. A Intrépida dispara seus lasers penetrando os escudos deficientes e rasgando a nave inimiga ao meio, que logo se transforma num monte de ferragens brevemente flamejantes seguida por uma nuvem congelada de escapamentos atmosféricos. Ainda restara uma nave. – Onde ela está? – pergunta a piloto.

– Droga! Esse truque é de escola antiga… – Pragueja Tyler como se fosse capaz de prever a tática inimiga. – gire a nave no eixo longitudinal em sentido anti-horário manobrando-a para a esquerda. Prepare torpedos ventrais para lançamento. – ao fazê-lo, uma salva de torpedos passa pela nave do Capitão Tyler que se esquiva por uma questão de um nano-segundo de sua quase própria eminente destruição. Com o disparo dos torpedos e sua rota quase colisão de ataque, a nave inimiga fica momentaneamente desnorteada deixando desprotegida sua parte superior.

– Disparar torpedo diretamente na ponte de comando. – A Intrépida lança um único torpedo que penetra o alvo bem no centro provocando uma explosão concentrada abrindo-a como um filhote de pássaro quebrando o ovo ao nascer. Os tripulantes da nave inimiga foram atirados rumo as estrelas que jamais brilhariam para eles e sim para os tripulantes da astuta nave Intrépida, assim Tyler esperava. – Vamos para o planeta. Alerta total de combate. – Anuncia finalmente.

Na superfície pálida do planeta, as explosões já haviam cessado. –Vamos sair daqui!– Sugere Tom impaciente. A jovem doutora temia que os agressores estivessem se aproximando a pé para servirem de seus algozes, sua vontade no momento era de fazer o mesmo. Entretanto… –Não!– Ordenou ao jovem. – Desculpe, mas não vou ficar aqui para morrer. – Tom sobe as escadas às carreiras, desobedecendo-a, Verônica corre atrás dele com Paris seguindo com dificuldade.

Ao chegar à superfície as imagens eram desoladoras, os membros das equipes que ficaram na superfície estavam com seus corpos totalmente destrinchados e carbonizados pelo ataque anterior, mais adiante mais corpos de nativos Dezorianos no mesmo estado, por isso não se podia ter noção de quantos eram precisamente, colunas de fumaças rumavam para o céu originados das tendas em chamas como um sinal de que aquele não era um bom lugar para se estar. Tantas perguntas a se fazer e nenhuma resposta à vista, a não ser pelas oferecidas por conjecturas pessoais. – O que eles estavam fazendo aqui afinal? E que negócio é esse de Lacônia? Seria o nome original do mineral X…? – Verônica deixou-se levar mesmo assustada pela ameaça de morte e aterrorizada pelos corpos decaídos ao chão. Pelo raciocínio lógico, com o termo Lacônia gravada em sua mente, ela tinha certeza de já ter ouvido essa palavra antes, ainda assim, era inevitável não procurar várias razões para a escolha deste termo, mesmo embora as respostas não lhes servissem no momento. De repente, o agressor aéreo ressurge nos céus disparando seu armamento contra os membros remanescentes, ele era pequeno, porém veloz e letal. Tom que se dirigia bem adiante rumo a Zosa, foi o primeiro a tombar em morte num estado similar a de seus companheiros em óbito. Amedrontado, Paris, que ainda estava perto da entrada da caverna em Skure, corre para dentro da mesma salvando-se. Verônica, porém, não tivera esta oportunidade, ela era a próxima, mas acabou optando por não correr e sim enfrentar a própria morte com compostura, encarando seu inimigo covarde.

– Se for para terminar aqui, que seja! Mas não verás mais um covarde a fugir. – Informa com palavras fazendo referência a uma peça teatral que assistira em seu aniversário de quinze anos, palavras estas proferidas com bravura mesmo com seu ser tomado pelo medo, mesmo sabendo que a barulheira era alta demais para que alguém pudesse escutá-la, mesmo sabendo que de nada adiantaria dizer isso a não ser para encher sua própria egolatria. Sua vida se passa num instante, ela queria que sua mãe ainda estivesse viva para que pudesse abraçá-la mais uma vez e dizer o quanto a amava, ver uma ultima vez o rosto de seu pai, e se possível, estar ao lado de seu amante neste momento derradeiro de sua existência.

Os canhões do agressor se iluminam, o disparo se daria em poucos segundos, quando eis que surge imponente do meio da neblina baixa, a Intrépida nave estelar disparando seus torpedos restantes contra o inimigo que tomba em pedaços. Uma nave menor pousa rapidamente, as portas se abrem e uma conhecida voz masculina chama… –Verônicaaa! – Tyler corria em direção a sua amada agarrando-a como se jamais a deixasse sair de seus braços.

– Vamos sair logo daqui! Zosa foi arrasada, não sobreviveu ninguém, as torres de comunicação foram totalmente destruídas. E tem mais encrenca aparecendo.

– Espere. Paris está vivo, ele voltou para Skure.

– Não dá tempo, logo isso aqui vai ferver como o inferno. – Tyler corre puxando Verônica pelo braço rumo à pequena nave de auxílio. A nave levanta vôo indo ao encontro com a Intrépida atracando no hangar de carga, e retornam para o espaço, onde chegando, são recebidos por um “comitê de boas vindas” de oito naves pertencentes à resistência Palmana.

Na ponte de comando, Tyler estava sentado em sua poltrona de Capitão com Verônica em pé ao seu lado, a sua frente, na tela central, uma frota de naves que se recusam a estabelecer contato e estão prestes a mostrar seu poderio bélico. Não haviam mais torpedos nucleares, e os geradores de lasers estavam quase esgotados.

– Vamos sair daqui. – Ordena o Capitão.

– Não! – Contesta sua amante. – Naquele planeta existem as respostas para todas as dúvidas já levantadas, a fonte do poder supremo, se isso cair nas mãos dos nativos, será o fim de nossa civilização como nós a conhecemos. – Verônica e algumas centenas de outros Terrestres provavelmente eram os únicos restantes na galáxia, seu planeta havia sido destruído por um erro elementar, uma péssima escolha que dera muito errada.

Tyler, que olhava bem dentro dos olhos da brava Doutora que acabara de enfrentar a própria morte com compostura, tentava encontrar um meio de vencer aquela luta com a sua própria nave quase totalmente desarmada e exaurida de forças.

As naves inimigas assumem uma posição padrão de ataque formando um cerco, Tyler percebe a situação imaginando que, por mais que tentasse, não poderia mais fugir a não ser retornando para o planeta. Mas essa idéia era perigosa demais já que sua nave estelar era incapaz de pousar em solo. No entanto, sua experiência dizia que eles não iriam usar toda a sua força nos ataques, eles estavam em maior numero e precisavam economizar seus armamentos para confrontos futuros já que o governo terrestre desmanchara todos os seus estoques de plutônio para construção de armamentos pesados. Mas ainda assim, no estado em que se encontravam, graças aos combates anteriores, eles não suportariam por muito tempo os castigos de seus canhões laser. Por isso Tyler precisava pensar numa solução inteligente sem destruir seus inimigos.

– Não! Chega de mortes! – Pensara. Alem do mais, suas naves poderiam ser reaproveitadas futuramente na constituição de uma nova frota de defesa Algoliana. – “O que fazer então se não fugir ou lutar?” – essa era a pergunta de todos ali presentes e cientes da situação. Até que outro coelho saiu da cartola.

– Ciência. – Convoca Tyler. – por quanto tempo se baixariam os escudos daquelas naves se lançássemos uma descarga eletromagnética…?

– A resposta de emergência dura cerca de 1 a 1 segundo e meio, Senhor. – Numa ocasião de papeis invertidos, Tyler acharia aquilo uma eternidade. Antigamente, para se gerar um pulso eletromagnético, eram necessários a detonação simultânea de várias ogivas nucleares, que além de causar danos maciços ao meio ambiente, espalhava a morte de várias maneira imagináveis e inimagináveis, Tyler achava irônico usar novamente este poder que ajudou a destruir a raça humana para preservar os remanescentes de seu povo naquele sistema solar estranho tão longe de sua casa. Entretanto, com a criação de um sistema de isolamento inibidor, isso deixou de ser um problema, qualquer objeto eletrônico seria reativado após a descarga.

– É possível incorporar um pulso iônico num laser contendo uma instrução de programação fazendo-o pegar carona até os circuitos bio-neurais…?

O silêncio se fez do outro lado enquanto os técnicos examinavam a possibilidade de viabilização daquela complexa e bizarra teoria. – De onde vêm essas idéias? – Eles se perguntavam sem que seu Capitão pudesse ouvir. Desde quando os circuitos tradicionais das naves estelares foram substituídos por armazenadores bio-químico, um novo leque de possibilidades se abriu: Computadores muito mais rápidos com capacidade virtualmente infinita de armazenamento e transferências de dados, tudo graças à invenção de um dispositivo que codifica as informações dos processamentos de dados em padrões de energia molecular baseada na aplicação de memória RNA, como numa célula orgânica.

– Sim senhor, é possível de certa forma com algumas modificações e re-teorizações, mas é necessário, ao disparar os lasers, atingir precisamente uma de suas bobinas de distribuição de plasma. – Quando um oficial superior solicitava ou oferecia uma solução, excetuando-se os casos de extremas inviabilidades absurdas, era de praxe nunca criar dificuldades, o tripulante incumbido pela tarefa, rapidamente deveria analisar a solução como se tal tivesse partido de sua própria concepção, assumindo para si os ideais da ordem, ou oferecer uma alternativa que fosse mais transitável.

– Tático, temos força suficiente nos bancos laser para disparar um feixe concentrado em cada nave no intervalo de tempo de 1 segundo a ponto de penetrar suas fuselagens…?

– Sim senhor, mas deveremos transferir toda a força dos escudos para as reservas de armamentos que estão a 4%.

– Isso deverá ser o suficiente. Preparem-se para executar a ordem, mas lembre-se: Eles precisarão ser disparados antecipando a onda eletromagnética em exatamente 1 segundo.

Tyler se recordava que antigamente não só os escudos de força como todos os sistemas elétricos eram inutilizados quando uma nave era atingida por uma variação do fluxo magnético resultante de um campo elétrico, até que superaram essa deficiência implantando sistemas redundantes de salva guardas, que reativam todos os sistemas. As implicações mais graves desse plano era que, além de estarem com seus escudos totalmente desligados, eles também receberiam esse pulso eletromagnético impossibilitando-os também por 1 segundo, isso incluiria sensores, navegação, comunicação e etc.

– Armamentos! Comece os cálculos de mira nas bobinas de plasmas das naves inimigas e coordenem com a informática e o posto de ciência para modificar e incorporar nos lasers uma instrução maliciosa para penetrar no núcleo sensor deles e adulterando os códigos de segurança e gerando uma ilusão holográfica.

– Senhor, que instrução deseja que insira neles?

Tyler poderia ordenar a invasão de um vírus de computador que pudesse ativar os sistemas de auto destruição, entretanto, Tyler simpatizava um pouco com as causas Palmanas, já que na realidade eram os terráqueos os verdadeiros vilões desta dramática história de sobrevivência. – Algo não muito complicado, faça os sensores deles acreditarem que a cavalaria chegou. – O plano de Tyler era simples, iludir os sensores das naves inimigas convencendo-os de que uma frota de naves do governo vindas de Palma estaria bem próxima, isso os faria recuar. Tyler não podia permitir mais sangue em suas mãos. – Eles estavam certos e nós errados. — Pensara o Capitão acreditando que era um erro interferir na cultura de um povo que só estava lutando por sua independência. Pelo fato de Tyler ser um simpatizante da causa rebelde, isso lhe rendeu inimizades de alguns membros do alto escalão, e sempre que podia, ele deixava seus declarados inimigos saírem vivos de uma batalha.

– Isso levará alguns minutos. – Comunica o encarregado do laboratório de informática, despertando no Capitão um silencioso momento de embevecimento. Tyler se sentou em sua poltrona tocando os controles no braço da cadeira de comando, um som característico de um apito cerimonial de marinha foi emitido para todos os conveses requisitando a atenção de geral.

– Atenção toda tripulação. – Ele diz firmemente – todos os deques. Iniciar alerta geral de combate de prioridade zero. Vamos proteger a área de Skure até que a cavalaria chegue. Precisamos ter sucesso nessa missão, e para isso devemos agüentar o máximo possível. – Suas palavras ressoaram por toda a nave, toda a força dos lasers seria guardada para uma única investida, Verônica, mesmo ao lado de seu salvador, e confiante em suas perícias beligerantes, era tomada por uma sensação muito ruim, uma sensação de fim eminente.

– Senhor, as naves estão atacando. – Avisa a piloto.

– Escudo ao máximo, manobras evasivas. – Ordena.

Nesse momento, as chances de sobrevivência num combate contra uma frota daquelas eram demasiadamente pequenas. Tyler, de certo modo, sentia um alívio curioso, imaginando que morrer sozinho era significativamente mais aterrorizante do que morrer ao lado de sua fiel tripulação, ou ainda, ao lado de seu grande amor. Mas num combate, as mortes dos amigos sob seu comando sempre foi uma questão a se pensar desde a época de sua formação acadêmica. O experiente Capitão da nave mais Intrépida da frota não podia tomar essa decisão por todos ao seu comando, mesmo embora os regulamentos o permitissem, mas não havia alternativa nesse caso. Apesar da natureza calma de Verônica, ela aparentava estar distante, pensativa, retraída num canto cerimonial de sua própria impotência e ignorância mediante a tal sensação, a mão de Tyler tateava desajeitada em busca das mãos de sua amante, ela retribui o gesto, suas mãos estavam frias e úmidas, – O que há…? Por que ela está assim…? – Pergunta a si mesmo em pensamento.

A ponte de comando foi tomada por um clarão cegante dos impactos fumegantes da chuva de lasers emitidos pela frota inimiga, os que não foram ao chão com o impacto cambaleavam inutilmente em busca de algo em que se segurar. Cada vez mais a nave adernava, a cada salva de disparos simultâneos os escudos da nave se desfaziam. Tyler segurou simultaneamente o braço de sua cadeira e o braço de sua doutora, esperando um comunicado informando que tudo estava pronto para o próximo passo. Mas o próximo disparo atirou-o de sua poltrona, lançando-o diretamente ao chão. Ao se erguer percebe sua testa ensangüentada por um corte profundo logo acima de seu olho esquerdo, observando ao redor pode perceber que não tinha sido o único a tombar. – Vai ficar uma bela cicatriz por toda a vida. – pensara – ou melhor, para sempre. – Corrigira.

– Relatório de danos. – solicita Tyler.

– Vitimas nos níveis dos alojamentos secundários. A matriz do sensor está inoperante. Sensores de apoio ainda funcionando.

Fez-se um breve silêncio, bem mais enervante do que a barulheira de há pouco com os disparos e os ruídos dos anteparos da nave se retorcendo. Todos ali estavam lutando com esperanças irresolutas, preparando-se para um novo ataque.

– Libere os controladores inerciais, vamos tentar passar a ilusão de que estamos pior do que realmente aparentamos. – As palavras entoadas pelo Capitão na ponte pareciam cômicas diante da real gravidade dos danos sofridos pela nave, uma mera pane nos amortecedores inerciais da nave poderia ou não fazer a diferença, poderia ou não definir as armas a serem usadas pelos agressores.

Com mais um impacto de lasers, a Intrépida adernou novamente e de maneira mais acentuada, uma grande explosão atingira diretamente a piloto que caíra sem vida ao chão aos pés do Capitão, sua jugular estava carbonizada e estraçalhada, o encarregado pela comunicação também tivera um destino semelhante. Assim que recuperada em seu centro de equilíbrio, Verônica correu sem que lhe ordenasse em direção ao leme para substituir a companheira falecida. Mesmo hesitante, Tyler permitiu.

– Custe o que custar continue mantendo nossa nave entre eles e o planeta. – Acionando novamente o comunicador – Andem logo com isso. – Grita impaciente esperando que alguém ainda estivesse vivo para concluir atarefa solicitada anteriormente.

– Não podemos mais recuar, se o fizermos, queimaremos na atmosfera e cairemos em Dezóris – Informa Verônica no leme.

– Relatório de danos.

– Escudos caíram, ruptura no casco nos deques 25 a 38, eminência de despressurizarão. Impossível determinar baixas no momento. Os sensores mostram que eles estão carregando os torpedos. – Informa o Posto tático.

– Eles não jogarão tudo o que tem contra essa nave, seria desperdício. Nós estamos sem escudos e eles totalmente armados.

– Pronto Capitão! Concluídas as modificações nos lasers. – Declarou finalmente a voz do oficial no alto falante. Havia chegado a hora de pôr em prática o plano que pudesse ou não salvar-lhes as vidas. Mas, algo dizia ao Capitão que eles conseguiriam cumprir sua missão, e tudo dependeria da perícia dele como Capitão. Todavia, como deduzido anteriormente, como de fato ocorrera logo em seguida, das oito naves apenas três dispararam torpedos, um cada uma, mas bastaria somente um deles atingir um ponto critico para que todos ali ardessem em chamas.

– Ative o manobrador lateral ajustando curso com inclinação de arfada em 30.7 graus, direção 047 marco 3, rotação total do eixo longitudinal à bombordo, disparar difusão otimizada dos lasers modificados em todas as naves simultaneamente e, após um intervalo de 1 segundo, acionar os geradores de pulso eletromagnético.

Num gesto derradeiro contra-ofensivo, esperando que isso fosse interpretado como um ato desesperado e suicida, a Intrépida se virou de frente para a frota indo de contra a mesma e disparando com todos os canhões lasers e em seguida o pulso eletromagnético. Como esperado, os escudos inimigos haviam caído por um breve momento permitindo que os lasers pudessem penetrar a fuselagem atingindo os condutores bioquímicos de informação ao mesmo tempo em que o software malicioso estava sendo introduzido em seus sistemas sem que eles pudessem perceber. Na manobra, entretanto, a nave de Tyler também havia perdido 1 segundo de potência conseguindo escapar de somente dois dos três torpedos. Um deles, porém, fez um arco acentuado em sua direção, era um torpedo dirigido impossível se esquivar, o impacto no dorso da nave foi direto e fulminante. A integridade estrutural da nave havia sido gravemente comprometida, todos ali morreriam, ou por asfixia da perda do oxigênio pela despressurização explosiva, ou congelados no intenso frio do espaço, ou por uma explosão no reator central de força devido ao hiper aquecimento proporcionado pelo vazamento do nitrogênio responsável pelo controle de temperatura do mesmo. Todas as reservas de força haviam acabado não adiantando chamar as equipes de controle de danos e ordenar a evacuação das alas críticas.

Partes dos anteparos despencaram do teto caindo sobre as cabeças dos oficiais da ponte e principalmente sobre a cadeira do timoneiro onde Verônica se encontrava, dos terminais choviam fagulhas diagonais de fragmentos flamejantes errantes letalmente lançados na velocidade de uma bala, rapidamente o local foi tomado por uma fumaça fria, acre e sufocante que sibilava sem parar dos conduítes de ventilação, os gritos de dor e desespero aos poucos iam cessando com os golpes da morte. O Capitão parecia ser o único a sobreviver àquele momento inicial de perigos aleatórios, de injúrias tecnológicas em colapso. A ponte de comando se tornava irreconhecível, iluminada pela avermelhada luz de emergência e pelas chamas nos terminais de comando. A tela principal ainda resistia em suas funções mesmo exibindo as imagens com estática. Tyler ficou deitado no chão com parte dos escombros prendendo seu corpo, ele podia observar a aproximação imponente e inevitável da gigantesca “bola branca” denominada Dezóris. Por uma vez mais, Tyler segurou a mão de Verônica, ela estava desacordada ou morta e coberta pelos destroços, ele ansiava por uma reciprocidade de seu gesto físico, mas não obteve.

Com os amortecedores inerciais danificados, o Capitão sentia-se rodopiando junto com a nave, um aumento na temperatura e sua vida entrecruzando-se desordenadamente diante de seus olhos.

Na fazenda de seu avô no vilarejo de Scion…

– “Tudo o que você desejar, poderá até conseguir, basta ter força em suas vontades.” – Diz um velho homem de barba e cabelos grisalhos…

“Eu não desejo morrer aqui…”

No enterro de sua mãe num pequeno cemitério de poucas covas…

– “Você jamais estará sozinho.”– A voz de Verônica parecia ser a única a confortá-lo naquele momento de tristeza…

“Eu me sinto solitário”

Seu ingresso na universidade militar de Camineet…

– “SEU ÚNICO OBJETIVO NO EXÉRCITO É FAZER TUDO O QUE EU MANDAR…” – Instrui aos berros o Sargento cujo nome não se recorda.

“Nunca fui muito bom em obedecer a protocolos ou ordens idiotas”

Sentado na sala de aula observando com olhar inocente e maravilhado uma jovem e cintilante garota de cabelos escuros que insiste em esnobá-lo.

– “Ela é areia de mais para o teu caminhãozinho…” – Diz um garoto gordo e desengonçado…

“Ela é um pouco mais velha do que eu, mas, com o passar de tantas décadas, seu rosto jamais mudou desde quando a conheci…”

Sua mãe religiosa jogando fora suas HQ’s herdadas de seu pai terrestre…

– “Mas mãe…” – Chora uma criança de macacãozinho e tênis azulados…

“Isso nunca diminuiu meu amor por você…”

Sentado à beira da cama pensando sobre o que é certo ou errado, e depois deitado na mesma com Verônica aos seus braços.

– “Se meu pai souber que eu matei aula pra fazer o que fizemos, ele vai me matar…”

“Aquela foi a nossa primeira vez de tantas que viriam”

Com suas malas nas mãos esperando o transporte da estação…

– “Vou esperar aqui até você voltar.” – diz uma velha senhora com seus olhos umedecidos pelas lágrimas.

“Aquela foi a ultima vez que vi minha mãe viva”

A exibição de um vídeo na academia mostrando o mundo natal de seu Pai em estado de alerta geral…

– “Gostaria muito de encerrar dizendo: “que Deus nos perdoe”, mas não posso” – Finaliza o anunciador da morte com uma declaração que condenou a todos ao aniquilamento…

“Meu sogro sempre pareceu gostar de dar essas notícias”

Seu primeiro comando no quartel general

– “Parabéns, Capitão, a Intrépida é sua nave agora. Trate a como uma dama, e ela sempre o trará de volta ao lar em segurança” – Informa um velho Capitão que agora tornara-se Almirante…

“Acho que não a tratei com o devido respeito”

Ao longo de todos aqueles dias narrados através de um caleidoscópio de sussurros do passado, ele despencou rumo ao planeta abaixo imaginando se sua tática de afugentá-los havia dado certo. Sua dor física parecia deixá-lo, sua visão cada vez mais se desfocava e escurecia engolfada por uma sombra que parecia finalmente tragar tudo o que ainda lhe restava de existência. Ansiando pela luz difusa e suave do que quer que fosse revelado no fim de todos os fins, ele pareceu sentir algo apertando sua mão, seu pensamento final naquele momento foi:

“Verônica…”

fanworks/fanfictions/brain/fic-brain_003.txt · Última modificação: 2009/01/13 11:58 (edição externa)

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