A mãe de Selene

Autor: Razel Rah
Tradutor: Orakio Rob

Na jóia púrpura, bem longe do mundo de seu passado complicado, ela jazia deitada na cama, incapaz de dormir. Ridículo! Uma mulher feita com medo do escuro! ela dizia a si mesma. Estou salva aqui, nesta lua, próxima ao meu amado marido. Mas não era a escuridão que ela temia, e sim os pesadelos que a assombravam todas as noites. Os pesadelos eram tão reais, tão cruéis, tão terríveis, que sua inocente face infantil era traída pelos círculos negros sob seus olhos de esmeralda. As noites sem dormir deixaram sua marca – ela estava um caco.

E quando deitou ao lado de seu marido adormecido, a mulher segurou um tufo de seu próprio cabelo verde e o enrolou entre seus longos dedos, brancos como leite. A bela cor a lembrava dos campos de Shusoran – seu lar. As vastas florestas e flores coloridas agora eram apenas lembranças. Essas coisas não existiam em Dahlia. Aqui, só havia metal – metal frio.

Mas o enrolar do cabelo a lembrou de outra coisa também – seu pai. Ela podia lembrar-se das manhãs de sua infância, quando os chirpers começavam a cantar. Ela corria até o salão do Palácio de Shusoran e rumo ao quarto de seu pai adormecido. Subindo na cama, ela fazia cócegas em seus pés até que ele acordasse. Apenas essas preciosas memórias faziam-na dormir.

Os olhos de Thea aos poucos se fecharam naquela noite, e ela começou a sonhar…


Era o mesmo pesadelo de toda noite. Ela estava revivendo seu terrível passado:

Thea estava sentada no chão de pedra da cela do calabouço. Ela estava presa à uma esfera de metal chorando com as mãos no rosto. Os “cliques” dos ciborgues – máquinas orakianas de matança – ecoavam pelos corredores e salões. Esses ruídos eram o som da morte – o som da morte do pai de Kara.

Os ciborgues invadiram Cille primeiro. A excêntrica velha rainha nunca havia sido uma regente forte. Quando a horda orakiana veio, ela proibiu seus exércitos de lutarem, dizendo “Meu amor retornou! Ele retornou para mim!” Sob as ordens de sua rainha enlouquecida, o povo de Cille foi massacrado sem resistência.

Shusoran não caiu tão facilmente. Thea podia lembrar-se de seu pai, ainda resistindo após perder su olho direito. Mas as lâminas metálicas dos ciborgues eram mais afiadas que as garras dos monstros, e nem mesmo Foi serviu como desafio para as balas cuspidas por uma arma orakiana. Ela sentou-se no chão frio do calabouço observando a morte de seu pai por várias vezes em sua mente. Thea jamais se esqueceria de seu assassino – ela observou enquanto o ciborgue com cabelos flamejantes apontava sua arma e matava seu pai. Siren! Só o nome já lhe enviava calafrios pela espinha. Siren! Siren! Siren! Como em câmera lenta, ela podia ver cada ponto de morte sair da arma e se alojar profundamente nas costas de seu pai. Ela podia ver a dor em seu rosto enquanto ele olhava para ela uma última vez e caía ao chão.

E agora caída ao chão, Thea estava sozinha. Ela era a última sobrevivente do reino de Shusoran. A última de seu povo; uma princesa sem trono.

A tristeza inicial aos poucos desapareceu na cela escura. A grande dor que sentia tornou-se ódio e desejo por vingança. Não vingança dos Orakianos – vingança de Siren! O ódio tomou seu corpo enquanto ela agarrava sua arma.

Nesse ponto do sonho é que as coisas ficam confusas. Elas se misturam e giram enquanto a realidade se altera na loucura do sonhador.


“Quem está aí?” Thea falou com voz forte de autoridade real e preocupação. Ela podia ouvir o som de três pessoas caminhando pelo corredor em direção à sua cela. Ainda que ela não pudesse ver além da curva, Thea sabia que não era o habitual “clique” dos ciborgues com o qual ela se acostumara.

Ela se pôs de pé de seu ninho de farrapos no chão e segurou sua arma com força na mão direita. Eles vieram me executar? ela se perguntou. Bom, eles não me pegarão sem luta! Thea se preparou para invocar Tsu e Gra como seu pai a ensinara. A arma que ela conseguiu esconder sob sua blusa ao ser capturada estava pronta ao lado sua orelha direita, preparada para ser lançada contra quem quer que viesse da curva e abrisse sua cela.

O executor vai ter uma surpresa se pensa que pode me levar tão facilmente. Pondo sua mão esquerda sobre o coração, ela fechou os olhos e sussurrou as palavras sagradas para si mesma, “Não mate o que vive… perdoe-me, Laya”. Ela tentou se manter calma, ainda que não conseguisse parar de tremer.

E então ela o viu – ela ficou apavorada. Ele tinha pele clara, devia ter sua idade, e cabelos azuis. “Não queremos machucá-la”, ele disse, mas os sinos em seus ouvidos bloquearam o som. Ela olhou fundo em seus olhos celestiais, e soube que era ele. “Vim resgatá-lo. Meu nome é A…”

Nesse ponto o sonho se vai… dissolvido pela luz da manhã.


“Aooohhhh!” Thea acordou ao lado seu marido; ela transpirava. Seus olhos corriam pelo quarto tentando distinguir a realidade do sonho. Ela se sentou na cama e olhou para suas mãos, ainda tremendo devido ao pesadelo, como se pertencessem a outra pessoa. O homem deitado ao lado dela, acordado por seus movimentos, falou com uma voz de quem acabou de acordar. “Pesadelos de novo, querida?”. Ele tinha longos cabelos amarelos.

Thea olhou para ele e sorriu. Ela amava esse homem – o homem das lendas. Foi ele que *realmente* a resgatou do calabouço orakiano. “Sim”, foi a resposta que murmurou.

Depois de passar as mãos nos olhos e bocejar, o marido de Thea perguntou, “Seu sonhado amante de cabelos azuis estava nele?”

Ignorando a pergunta, Thea olhou em seus olhos negros que lembravam tanto os de seu pai, e disse, “Eu te amo,Lune, com todo meu coração”.

Ele respondeu beijando-a gentilmente na testa. Lune então olhou para sua barriga, que já mostrava os primeiros sinas de gravidez, e perguntou “como se sente?” Os enjôos matinais de Thea e suas mudanças de humor mantiam Dahlia nas pontas dos pés ultimamente.

Passando a mão pela barriga, ela respondeu, “já estive pior. (uma longa pausa) Que nome você quer dar a ela?”

“Acho que a chamaremos de Kara.”

“Kara: filha de Lune e Thea. Gosto de como soa. Um dia Alisa III conhecerá esse nome.”